Espiritualidade x Desigualdade x Disciplina

O desabafo emocionado de uma mãe. Ela é um exemplo de determinação, de luta, está vencendo, já concluiu os estudos.

Eu, filha de um trabalhador rural negro e de uma lavadeira branca, nasci negra, pobre e nordestina, a mais nova de uma família de 7 irmãos. Minha mãe muito batalhadora, arrumava sempre um jeitinho de aumentar a renda familiar, junto ao meu pai. Vivemos fases difíceis, mas sempre de forma digna “para transformar nossa casa de taipa em casa de material”, era como ela falava.

Dentre muitas de suas funções destacarei no momento apenas duas: mesmo tendo estudado até o 4° ano, hoje o Fundamental 1, ela juntava algumas crianças da vizinhança e ensinava-lhes o alfabeto, os numerais e a escrever seus nomes, inclusive assim fui alfabetizada. A outra, ela recolhia roupas para lavar e depois devolvia para seus donos, lavadas e passadas, e eu, com meus 12 anos às vezes a acompanhava. Nessas idas e vindas com trouxas de roupas, quando encontrava alguns colegas, por alguns segundos ficava envergonhada (meu ego), mas logo meu lado consciente me chamava para a realidade, então levantava a cabeça e com orgulho de minha pequenina em tamanho mas grande em determinação e sabedoria, minha mãe a senhora Elizabeth, eu seguia firme o meu caminho.

Assim sou eu, exigente comigo mesma desde de criança, me autoanaliso todo tempo tentando me manter firme nos pensamentos positivos, em não permitir que a desigualdade gritante que existe ou que enxergo à minha volta não domine meu coração ao ponto de me revoltar, pois revoltar não vai resolver o que tanto me incomoda.

Me deparo em tantos questionamentos como em um duelo, lado negativo contra positivo, eu tentando equilibrar as energias de modo a me impulsionar a ir em busca de realizar meus sonhos e projetos e de contra partida controlar meus descontentamentos, inquietações…

Por exemplo, sou caseira,  moro numa casa minúscula com meus dois filhos adolescentes, a casa tem muito mofo. Não sou só eu, tem muitas pessoas que moram assim como eu nesta região. Mas mesmo assim sou muito grata, não pago em dinheiro meu aluguel, nem luz, nem água, mas pago com muito suor e não quero que pensem que estou reclamando, mas é algo que me inquieta.

Enquanto os patrões pintam, redecoram, chamam a arquiteta para ver como melhorar ainda mais seu conforto eu corro para farmácia para comprar remédios, pois meus filhos tem alergia ao mofo, nas crises constantes tem febre e muita tosse. Eu, as vezes, acordo também com tosse devido ao mofo e aos os produtos que uso na limpeza da casa para dar mais conforto aos patrões. A casa tem pouca ventilação, falta ar circulando, só estamos com um ventilador funcionando.

Enquanto tudo isso passa pela minha cabeça tento achar o equilíbrio em meus pensamentos, eles, os patrões, não são maus conosco, penso que foram educados assim, não percebem a necessidade dos que estão a servi-los, acredito que seja cultural, vem desde a época da escravidão ou talvez desde o início dos tempos. Tento controlar isso tudo dentro e fora de mim, pois meus filhos enxergam tudo com seus próprios olhos, com sua visão de mundo, e percebem essa gritante desigualdade. Eu busco achar o equilíbrio em mim, para também acalmar a revolta causada neles por conta desta sociedade tão desigual .

Este ano pandêmico, digamos assim, tem me mostrado ou me causado tantas situações de racismo, preconceito e desigualdade que se não fosse essa minha ”tentativa” de auto controle em me disciplinar, me policiar, inclusive os meus pensamentos e emoções, já teria surtado.

Então, no Amor-Exigente, com a reflexão deste 11º Princípio – Exigência na Disciplina e do 11º Princípio Ético, o ser ético, o ser grato, o ser correto, o ser referência positiva…têm sido meus exercícios constantes em meus dias.

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