DQuímica: A Perda da Liberdade de fazer ESCOLHAS

A dependência química é uma espécie de prisão em que um dos principais prisioneiros é a mente. A doença mental pode ser definida como a “perda da liberdade de escolha”. Mas não aquelas cujo direito de exercê-las é garantido pela constituição federal. Quem explica é Marcelo Ribeiro, psiquiatra, membro do Programa de Pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP e presidente do Conselho Estadual de Políticas Sobre Drogas (CONED). “Tal perda está relacionada ao surgimento de fenômenos que se manifestam na mente humana para além da vontade da pessoa – tais como alucinações, os delírios, as oscilações patológicas de humor e as atitudes compulsivas, impossibilitando que a vida mental do sujeito acometido por tais alterações possa exercer e se responsabilizar por seus atos com autonomia e liberdade”. “A doença mental é o colapso da comunicação lógica, aquela, em que a possibilidade de estar errado, a necessidade de reformular, a mea culpa estão sempre presentes”, diz o especialista.

De acordo com ele, com a ideia da loucura como “perda da liberdade de escolhas”, é possível notar que o dependente químico não completamente é “louco”, tampouco completamente são: um “normal-quase-psicótico” ou um “psicótico-quase-normal”, alguém com um pé em cada barco. “Boa parte entende, ou é capaz de entender, a natureza da doença que o aflige, mas, pelo menos de início, apenas uma minoria é capaz de se responsabilizar pelos estragos que ela traz”.

Nesse contexto, completa o especialista, tomar a afirmativa “não quero parar de usar drogas” como uma verdade absoluta ou um exercício de direito inconteste, capaz de isenta-lo de qualquer tipo de abordagem terapêutica, pode ser tão negligente e danoso para o usuário de drogas – por desconsiderar a provável presença de um transtorno mental -, quanto seria definir aprioristicamente que todo usuário é um doente passível de internação compulsória. “Mais uma vez, “anormalidade” não significa obrigatoriamente “patológico”. O oposto de normal não é o doentio, é somente o anormal; o anormal pode sinalizar a doença, patologia, quando permite conceber um distúrbio funcional correspondente”.

No final, om que mais importa é que o dependente químico possa se assenhorar e assumir paulatinamente o seu processo de recuperação. “E o instrumento para isso, agora sim, só pode ser obtido por intermédio do exercício da razão – e do patrimônio psíquico que emana deste -, ainda que no começo seja necessário reconhecer que ele não é páreo para o querer irracional do desejo de consumir”.


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